A ciência do devir - a caravana - desempoderamento pela ausência - a negação das fronteiras políticas e lingüísticas da velha ordem: Nações são prisões. A experiência do andarilho. O deslocamento e a obtenção de recursos. O nomadismo é uma forma de se relacionar com o ambiente do entorno, tanto físico quanto cultural, quanto psicicológico, por que os três são um só e a possibilidade de interações com este ambiente é virtualmente ilimitada. O nomadismo pede isso, testar as interações com o ambiente. Todos os dias você vai de casa para o trabalho e do trabalho para casa no mesmo horário? Você almoça no mesmo restaurante e conversa com as mesmas pessoas sobre a mesma série idiota da televisão paga? Por quê você não se perde? Não chega no trabalho mais cedo e prepara o café ou lê a agenda do chefe? Expanda seus horizontes para além da rotina massacrante. Continue na rotina massacrante, qualquer que seja, se isso for por algo mais que dinheiro, férias, drogas ou outras compensações fúteis. Tenha mais de uma casa, viva entre elas. Pensando rotas alternativas, mantimentos e eventuais contratempos. Ainda saiba se orientar pelas manifestações da natureza, mas também saiba se orientar na web. Você sabe fazer fogueira? Já sofreu um transe e se transformou em outro ser, com outras potências? Pense diferente e implemente essa diferença. Somos governados por leis naturais e leis sociais, mas usamos da natureza e, enquanto sociedade, criamos e gerimos essas leis que nos governam. Governam? Ainda governam? Só porque não investimos, vários, em algo diferente. O nomadismo é isso. O nomadismo é psíquico, é interno...mas é também essa ação modificando o externo, na rede, no coletivo em que estou. É investir em destruir, é investir em construir a partir de outros nós, feitos com praticamente a mesma corda social. Pois não podemos prescindir da troca, mas podemos mudar, ou até eliminar o dinheiro. Podemos pensar em outras alianças entre os homens e o cosmos. Podemos insistir na pedagogia cotidiana para uma nova ética e uma nova espiritualidade. Podemos gerenciar uma outra territorialidade, sem nenhuma propriedade. E assim por diante.


Hakim Bey



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1 Comments:

At 14 de agosto de 2008 às 17:51, Anonymous Anônimo said...

produzir o que quer que seja, de um filme cinematográfico até um sapato, de um automóvel a uma casa, é sempre um ato duvidoso...

a vulgaridade julga o homem pelo que ele tem e faz...

a nobreza julga o homem pelo que ele é...

entre a vulgaridade e a nobreza, as duas classes morais mais características da humanidade, há um imenso oceano... para ir de um lado a outro é necessário esforço, disciplina, ascetismo...

a construção de nações, de identidades nacionais, de fronteiras políticas entre Estado-nações, são fatos modernos... e como tudo na modernidade, isso também não deixa de feder...

sou anti-moderno... considero a Santa Teologia, de uma época muito mais rica e plena do que a historiografia iluminista imagina, dos renomados Doutores da Santa Madre Igreja Católica, a Ciência das ciências, a única ciência verdadeira, porque a única ciência inspirada diretamente pelo Espírito Santo e pelo Verbo Divino, e portanto o melhor caminho para que o ser humano tenha entendimento de sua Alma e do seu Criador, a Mãe Eterna... (chamar Deus de Mãe ou Pai não passa de metáforas... Deus transcende a linguagem humana)mas a modernidade, ao invés de levar entendimento, traz confusão e desordem ao espírito do homem... as guerras nacionalistas são uma prova disso...

O nomadismo foi praticado por todos os místicos na Idade Média em suas peregrinações...

São Brandão, São Francisco de Assis, São João da Cruz e muitos padres e monges e fiéis católicos realizavam anualmente viagens para lugares sagrados, atravessando a Europa, sem ter que passar por barreiras alfandegárias... era comum ainda a peregrinação à Terra Santa, viagem difícil por ser um teste das virtudes cristãs da caridade e da misericórdia, pois no caminho os cristão haveriam de se encontrar com seus irmãos muçulmanos, e neste encontro é que iriam mostrar se realmente haviam ou não compreendido a lição de amar ao próximo como a si mesmo...

apesar da estupidez das cruzadas, causada por pessoas ignorantes que nada entendiam de religião, os cristãos e muçulmanos de boa-fé geralmente se tornavam amigos e compartilhavam seus mútuos aprendizados: poesia, filosofia, alquimia, astronomia, matemática, teologia, medicina, uma infinidade de conhecimentos nasceram e se desenvolveram a partir destes encontros...

O nomadismo psiquico significa abertura para o outro, a capacidade de dialogar com as diferenças, o respeito e a tolerância por outras culturas e povos...

Concordo com Hakim Bey: nós podemos conceber uma ética sem nenhuma divisão do território (coisa de bicho irracional), sem nenhuma propriedade da terra (a sagrada terra é de Deus e só a Ela pertence), compartilhando experiências e saberes sem uso do cesáreo dinheiro, em espírito de fraternidade e amor...

 

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