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Condenaria-se um açougueiro que vendesse carne podre, mas a legislação permite impor habitações podres às populações pobres. Para o enriquecimento de alguns egoístas, tolera-se que uma mortalidade assustadora e todo tipo de doenças façam pesar sobre a coletividade uma carga esmagadora.

O crescimento da cidade devora progressivamente as superfícies verdes limítrofes. Esse afastamento cada vez maior dos elementos naturais aumenta proporcionalmente a desordem higiênica. Quanto mais a cidade cresce, menos as "condições naturais" são nela respeitadas. Por "condições naturais" entende-se a presença, em proporção suficiente, de certos elementos indispensáveis aos seres vivos: sol, espaço, vegetação. Uma expansão sem controle privou as cidades desses alimentos fundamentais, de ordem tanto psicológica quanto fisiológica. O indivíduo que perde contato com a natureza é diminuído e paga caro, com a doença e a decadência, uma ruptura que enfraquece seu corpo e arruina sua sensibilidade, corrompida pelas alegrias ilusórias da cidade. Nessa ordem de idéias, a medida foi ultrapassada no decorrer dos últimos cem anos, e essa não é a causa menor da penúria pela qual o mundo se encontra presentemente oprimido.

As construções destinadas à habitação são distribuídas pela superfície da cidade em conflito com os requisitos da higiene. O primeiro dever do urbanismo é pôr-se de acordo com as necessidades fundamentais dos homens. A saúde de cada um depende, em grande parte, de sua submissão às "condições naturais". O sol, que comanda todo o crescimento, deveria penetrar no interior de cada moradia, para espalhar seus raios, sem os quais a vida definha. O ar, cuja qualidade é assegurada pela presença da vegetação, deveria ser puro, livre das poeiras em suspensão e dos gases nocivos. O espaço, enfim, deveria ser distribuído com liberalidade. Não nos esqueçamos de que a sensação de espaço é de ordem psicofisiológica e que ruas estreitas e o estrangulamento das áreas comuns criam uma atmosfera tão insalubre para o corpo quanto deprimente para o espírito.


Le Corbusier, 1933





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1 Comments:

At 25 de agosto de 2008 às 00:41, Anonymous Anônimo said...

As grandes cidades brasileiras, com mais de 1 milhão de habitantes, são insalubres e poluídas... os rios são canalizados em linhas retas e separados da cidade por vias de automóveis... as áres verdes de preservação são poucas... o ar sujo e de pouca umidade se torna um clima pior que de deserto... água, ar, vegetação, fauna, toda a biodiversidade local é empobrecida pelo processo de ocupação da terra e construção do meio urbano...

Fico surpreso com essas palavras de Le Corbusier... nunca o vi como um crítico da modernidade... tinha como certo que ele era um dos defensores do racionalismo urbano que ignora a necessidade de preservação das condições naturais, em favor da modificação total dos ecossistemas pelo ser humano...

pelo visto ele era um homem sensato, que não justificava a destruição ambiental com noções equivocadas, tais como o "crescimento econômico", a "luta pela sobrevivência", ou qualquer outra forma de fatalismo que vê o processo de degradação dos ecossistemas como uma "lei natural" da História, e portanto um fenômeno inevitável e irreversível...

 

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