
O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas idéias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretárias para as mesas dos cafés. A ruína econômica cresce, cresce, cresce… O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário diminui. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária explora o aluguel. A agiotagem explora o juro. De resto a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. O número de escolas só por si é dramático. O professor tornou-se um empregado de eleições. A população dos campos, arruinada, vivendo em casebres ignóbeis, sustentando-se de sardinha e de ervas, trabalhando só para o imposto por meio de uma agricultura decadente, leva uma vida de misérias, entrecortada de penhoras. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do país. Apenas a devoção perturba o silêncio da opinião, com padre-nossos maquinais. Não é uma existência, é uma expiação.
Eça de Queirós
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3 Comments:
Olá! parabéns pelo blog. dava pra colocar o estilo do cd?
Valeu.
www.allmusic.com
eis o velho Eça com suas palavras de indignação e de horror...
mas será que esse pessimismo, essa visão putrefada da vida, esse discurso mortuário, ainda fazem sentido em Portugal?
Eça de Queirós fala da Portugal de ontem, mas é como se falasse do presente, do hoje, do agora, de uma situação humana desgraçada, uma "expiação", uma penitência...
Eça não fala unicamente de "um" país, talvez suas palavras se encaminham para todos os países, para todas as nações do mundo...
cabe ao leitor julgar se elas são verdadeiras e se revelam a sua realidade local.....
de minha parte, entendo que esse tipo de pessimismo fúnebre é pura ilusão e distanciamento da Verdade.
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